terça-feira, 9 de junho de 2020

UM POEMA VALE MAIS QUE MIL PALAVRAS


(Carlos Drummond de Andrade, 31/10/1902 - 17/08/1987)


Quadrilha

(Poema publicado em 1930 em sua primeira obra Alguma Poesia)


João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história.



Minhas impressões sobre esse lindo e instigante poema:

Um poema vale mais que mil palavras, e vou provar o porquê!


Não interessa quantas palavras o poema tenha. O que interessa é o valor de cada palavra no poema, porque, embora ele use palavras, o poema não fala o que as palavras dizem. O poema faz as palavras dizerem o que o poeta quer dizer. 


Todo poeta é um alquimista de palavras!


Analisemos, por exemplo, as palavras do grande poeta Carlos Drummond de Andrade, em seu poema denominado “Quadrilha”: o que esse poema diz para você? Eu não sei o que esse poema diz para você, mas, para mim, o poema fala muito sobre o amor.


Vejamos apenas três pontos que me chamaram atenção nesse belo poema:


1. O amor nem sempre é biunívoco, pois ele pode não ser correspondido, claro! Então vem a pergunta: O que é o amor não correspondido? Respondo: é o fake news do amor, pois representa a completa alienação da felicidade própria. O amor verdadeiro não se pergunta sobre o retorno, o amor verdadeiro não necessita de correspondência, ele não precisa de espelho, o amor verdadeiro é gratuito e incondicional. O amor verdadeiro simplesmente ama, ponto.


2. As pessoas se amam, sim, isso é verdade. Mas, muitas vezes, ao amar, as pessoas se confundem sobre o que é o amor. Quem ama não foge, como João; não se enclausura, como Tereza; não se mata num desastre, como Raimundo; e nem se desilude e fecha o coração, como Maria. Quem ama verdadeiramente enfrenta os desafios, encara as dores que vierem, não morre, mas fica vivo para amar mais; quem ama, verdadeiramente, deixa o coração oxigenar, pois abre as portas e janelas da vida para novas chances e oportunidades. O amor é vida, o amor é alegria, o amor é luta diária de autoafirmação e consciência de si; o amor não é sofrimento, não é dor e não é alienação! Ninguém é capaz de amar verdadeiramente o outro se não for capaz de amar a si próprio, em primeiro lugar! Somente quem experimenta o amor verdadeiro é capaz de distribuí-lo! Na verdade, a essência do amor é distribuição!


3. No poema, o poeta não fala do amor antes de João, sequer do amor inexistente de Lili. No entanto, esta se casou, aquele fugiu! Ora, quem ama verdadeiramente não foge, e quem se casa nem sempre é por amor! Qual amado teria um nome tão parecido com a insígnia de uma empresa “J. Pinto Fernandes”? Será que Lili se casou com “José”, com “João” ou talvez com o próprio “Joaquim”, cujo sobrenome era “Pinto Fernandes”, mas que depois descobriu o amor não correspondido de Lili e, por isso, se matou?


Bom, tratei apenas três pontos acerca do que me impressionou esse lindo e instigante poema do grande poeta brasileiro, Carlos Drummond de Andrade. E só por isso já se foram mais de quinhentas palavras e mais de três mil caracteres!


Imagine tantas outras impressões e interpretações possíveis que um poema, como esse, pode ocasionar nas pessoas!


Portanto, está provado: um poema vale mais que mil palavras!


NO PÉ DE OITI




Era um pé de oiti 

Saudades ainda

Uma lembrança vaga

Como era linda

A tua beleza

Minha princesa

Ainda menina

Me namorava


Naquela praça

Da Santa Casa

De Misericórdia

Daquela escola

Só nostalgia

Clóvis Salgado

Eu namorado

De tua imagem


Passou o tempo

E nós também

Tudo mudou

Mas só ficou

Meu nome e o teu

Naquela praça

Mostrando a graça

No pé de oiti


MEU QUARTO

(Créditos: Vincent Van Gogh, O quarto de Arles)


Não fosse esse tempo de isolamento social, essa pandemia que me enclausura pelo medo da morte, eu poderia pensar que este mundo que clama pela permanente intercomunicação e interatividade, onde as pessoas têm que estar constantemente antenadas, plugadas, conectadas, ligadas... não, não há espaço para o silêncio e a intimidade, não há espaço para o meu autoconhecimento, pois se sou, o sou, pelo que os outros me legitimam! Que vida triste a minha, escravo das alheias perspectivas! Eu tenho que mudar isso, pois não sou, a despeito de Berkeley, apenas um objeto a ser visto! Isso é urgente! Eu não sou objeto, eu sou sujeito e dono de minha própria percepção, quer gostem os outros, quer não!

Mas o quarto, o meu último refúgio para a autocontemplação e meditação íntima comigo mesmo, onde somente eu sou o espelho de mim mesmo, já não passa de um mero depósito de um corpo abarrotado de dramas e estresses que calam o corpo num repouso forçado. 

Já não se lê mais; já não se ouve música; já não se curte mais a intimidade como antes - o quarto, esse recôndito da intimidade, já não serve mais pra nada além do obrigatório depósito de resíduo de um corpo cansado de tantas redes sociais e celulares que não nos deixam em paz!

Ele, o quarto, poderia, muito bem, cumprir outras tarefas além de servir para dormir!

Vincent Van Gogh, o grande mestre da arte pontilhista, não se esqueceu de presentear a posteridade com um belíssimo quadro do seu quarto de quando vivia em Arles, na França. Não obstante, o fim que teve esse grande pintor conseguiu mostrar que um quadro (leia-se também "quarto") vale muito mais do que mil palavras!

O que escrevo sobre o meu quarto tenta ser um diálogo com o meu refúgio, aquele que é mais escondido de mim.


Meu quarto, meu refúgio!

Esconderijo de minhas mágoas

Leito sereno das águas

Que escorrem do meu rosto

Como aljôfares em folhas ressecadas



Meu quarto, meu ninho!

Repouso de um guerreiro

Que em disputas por outros peitos,

Vísceras expostas de um defeito,

Que a lâmina do ódio meu íntimo feriu



Meu quarto, meu silêncio!

O conforto de um diálogo sem palavras

O aconchego de um sonho alienante

O sossego inalienável de direito

À solidão requerida por vontade


Meu quarto, meu “Eu”!

Onde toda a identidade,

Da nudez à intimidade,

Se revela na individualidade que acalma

Todo o corpo que enclausura minha alma!


segunda-feira, 8 de junho de 2020

VIAGEM NO TEMPO

(Créditos para Salvador Dali por essa magnífica pintura. Belíssima!)

O tempo é algo que sempre me intrigou. O diálogo com o tempo e a coragem de defrontar-se com ele vive a me instigar quando me confronto com as etapas da vida, infância, juventude e velhice. Hoje visitei os tios de minha esposa. Sou um observador das idades! 

Enfim, a vida não se cansa de multiplicar e apresentar possibilidades. Que vivam os jovens e os velhos e todos possam trocar suas experiências. Quanto a mim, sinto-me eternamente no meio de dois gigantes: o passado, que até há pouco era um segundo; e o futuro, o engolidor de agora e do que passou!

Mas sempre fica a recordação de uma vida que viaja no tempo, admirando-o e repeitando-o na sua imensa majestade.



Nessa estrada em que trago a vida

Eu me perco e nem sei quem sou

Sugo o tempo numa bebida

Venço o passo que me alcançou


Vidas muitas que me assolaram

Moças pardas, loiras e pretas.

Laços ternos que me assomaram

Tristes mares, coisas secretas.


Risos lânguidos, dissabores.

Festas pálidas, tempo largo

Flores, pétalas: tantas cores


Nos sorrisos que imprimem o cargo

Em licores toscos amores

Que viagem de um gosto amargo!

PORTO SALGADO


Era Porto Salgado

Hoje nem porto, nem sal

Era caranguejo que se vendia

E lanchas que aportavam

Vindas do delta, dos igarapés


Tinha uma águia lá em cima

Eu era criança e me lembro

Ir à Ilha Grande só de balsa

Era o famoso batelão, como se dizia

Quando se queria ir pros morros


Mas não sem antes avistar

Os cata-ventos - diferentes ventos:

Ou quem sabe pro "céu" se iria

Pros tatus, ou labino, quem sabe?

Eram cajus doces imperdíveis!


Antes da ponte de Simplício Dias

Aquilo lá era um mistério!

Hoje não se tem mais mistério,

É só subir que já se está

Na vazantinha a perambular.


Naqueles tempos

De calções e camisetas abertas

Ao sair do "Miranda Osório"

E passar pela "Merenda do Índio"

Um ligeiro persignar na "Praça da Graça"

Pra deliciar aquele momento

Que embora perdido no tempo

Continua avesso à monotonia,

Atesto de uma alquimia

De emoções e saudades

Do pequeno sonhador

À beira do Porto Salgado

quinta-feira, 21 de maio de 2020

NA MINHA RUA




Na minha rua se vendia manuê
E cambo de peixe que carregavam
Os pescadores do rio,
Os sonhadores no frio
Das madrugadas do Igaraçu,
Os armadores de tarrafas e anzóis,
Os pecadores nas redes e lençóis
Nas noitadas com as mulheres
Da munguba e dos arrebóis.

Na minha rua não tinha calçamento
E cuscuz lá também se vendia.
Se era de arroz ou de milho
Quem se importa, meu filho?
No desenho da areia molhada
A meninada da rua, faminta,
Disputando a vitória no "finca"
São os ganhos no jogo da vida
De uma vida-criança que brinca.

Na minha rua não tinha esgoto
E nem bueiro, só tinha areia
Areia fina do aterro,
A inocência nem vê o erro
Do descaso dos meus dez anos
Na minha rua eu jogava bola
Não tinha fome, nem coca-cola
Tinha o campinho do benvindão
Eu nem lembrava se tinha escola.

Na minha rua não tinha dengue
E nem mosquito, isso eu não via.
Brincava à toa, 
Lá na lagoa
Da quarenta que se chamava
Lá se assentava, água salobra 
Se via o pato, tempo de sobra 
Se via o sapo e o peixe-mussum 
Que eu pensava que era cobra.


Na minha rua a gente brincava
Passava o tempo e nem se notava
A pobreza à volta.
Lembranças soltas,
Trago comigo a leveza daqueles dias, 
Da rua que o tempo fez afastar
Memória minha, vem afagar!
Não troco a rua daqueles tempos
Pela rua de hoje que há.

À minha rua, eu creio, ainda
Quem sabe um dia poder voltar,
Na rua do tempo,
Nas ondas do vento,
 Não a rua do espaço,
Pois que lá ela está,
Mas, que possa, o poeta sonhar,
Nessa terna lembrança 
De nela brincar.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

MÃE, O QUE É?

Mãe é um facho da luz de Deus em nossas vidas; 
é o sinal mais evidente da existência do incomensurável amor! 
Enquanto houver mãe, haverá amor; 
enquanto houver amor, haverá esperança; 
enquanto houver esperança, haverá fé na humanidade e no mundo criado por Deus!

Mãezinha, sei que estás tendo um feliz dia das mães, pois majestosamente foi e continua sendo uma mãe maravilhosa, pois vivendo hoje no coração de Deus, apenas a lembrança do teu amor, atenção e carinho tornam os teus filhos pessoas melhores! 
Te amo, mãe, hoje e por toda a eternidade! ❤️❤️❤️❤️❤️❤️❤️🙏🙏🙏🙏🙏🙏 Infinitos beijos! 😘😘😘😘😘😘😘😘

sábado, 16 de maio de 2020

O QUE É FILOSOFIA?


Perguntar acerca do que seja o objeto da ciência que se estuda não pode encontrar espaço mais adequado do que na filosofia. Só o estudante de filosofia é capaz de indagar-se constantemente acerca da definição da ciência da qual se ocupa. O estudante de qualquer outra área do conhecimento se o fizer, estará filosofando.


Aliás, como se sabe, filosofar não é prerrogativa apenas de quem estuda filosofia. Filosofar é ínsito à natureza do ser humano. SER humano é PENSAR. Não se pode SER humano sem PENSAR. PENSAR, categoricamente, é próprio do existir humano.


Mas, afinal, o que é esse PENSAR FILOSÓFICO? 


Minha definição: Pensar filosoficamente é cutucar, racionalmente, os limites da conhecimento posto. Portanto, para mim, filosofar não é fazer o trivial, pois este já foi pensado, mas enveredar por uma senda na abóbada do intelecto, proveniente de uma fresta causada pela teimosia do ser humano em autoconhecer-se, a buscar insistentemente pelo sentido de tudo, pelo significado das coisas e da vida. Filosofar é extasiar-se diante do indecifrável, do inefável, do indescritível, do inexplicável, dos fenômenos que se mostram absurdos e, diante disso, buscar respostas racionais.


A filosofia é o instrumento para o filosofar. Por convenção, sabe-se quando, histórica e geograficamente, nasceu a filosofia. Pela história da filosofia sabe-se até quem foi o primeiro filósofo e sua primeira especulação; impossível, no entanto, é dizer quem foi o último filósofo, ou melhor, quem está sendo, neste exato momento, o filósofo e qual é a sua causa.


Enfim, o que é filosofia? Não posso ter outra definição, senão a de que a  filosofia é vida e filosofar é viver, é respirar, é se sentir gente, é se autoconhecer e se afirmar existencialmente.


Filosofia, o que é isto? filosofar, o que é isto?


Ora, filosofar é perguntar o que é isto!


Sou filósofo!

sexta-feira, 15 de maio de 2020

O SERVIDOR PÚBLICO DOADOR DE SANGUE: O limite entre o elogio e a reprimenda disciplinar



Desde a Lei nº 1.075, de 27/03/1950 é garantido ao servidor público civil, militar ou autárquico, voluntariamente apresentar-se como doador sangue aos estabelecimentos públicos que mantém Banco de Sangue, o que, ex vi lege, também lhe é assegurado o direito ao registro de elogio em seus assentamentos funcionais, bem como a respectiva dispensa do ponto no dia em que ocorrer a doação.
A importância do instituto merece destaque, sobre o qual não se deve olvidar o merecido respeito, fato considerado relevante quando se busca na história as suas razões propedêuticas.

A referida norma, já septuagenária, originou-se com a apresentação do Projeto de Lei nº 216/19491, de autoria do Deputado Federal Lima Cavalcanti, UDN/PE, cuja ementa já assinalava a justificativa das “providências de estímulo aos bancos de sangue”. Tal iniciativa parlamentar refletia a demanda latente que havia na década de 40, quando a hemoterapia começava a ser vista como especialidade médica e que exigia, no Brasil, a instituição de Bancos de Sangue2.

As doações de sangue, à época, decorriam do apelo aos parentes dos doentes, ou através de contrapartida remuneratória, o que, ainda assim, não supria as necessidades médicas e demonstrava a urgente necessidade do incentivo à doação voluntária, para a construção de um patrimônio comum a toda a coletividade, dada a “singularidade do sangue como recurso terapêutico”.

A Lei nº 10.205/2001, que regulamenta dispositivo constitucional (§ 4º, art. 199/CF) estabelece, em seu artigo 14, os princípios norteadores relativos à doação de sangue, dentre os quais se destacam:
  • A voluntariedade;
  • A gratuidade;
  • A solidariedade humana e compromisso social; e
  • A proibição da comercialização do sangue.
Segundo informações da Agência Brasil3, “A cada bolsa de sangue doada, até quatro vidas podem ser salvas no país, segundo estatísticas do Ministério da Saúde”. Isso não é pouca coisa, considerando o fato de que, no Brasil, de acordo com o Conselho Federal de Medicina - CFM4, “a cada 60 minutos, em média, pelo menos cinco pessoas morrem vítimas de acidente de trânsito”.

Mais adiante, o CFM também informa que “ (…) os acidentes de trânsito (…) deixaram mais de 1,6 milhão de feridos nos últimos dez anos, constituem um grave problema de saúde pública e que provoca sobrecarga nos serviços de assistência, em especial nos prontos-socorros e nas alas de internação dos hospitais. (…) Segundo a análise do CFM, a cada hora, em média, cerca de 20 pessoas dão entrada em um hospital da rede pública de saúde com ferimento grave decorrente de transporte terrestre”.

A tais acidentes de trânsito que vitimizam muitos brasileiros, somam-se tantos outros gravames e doenças que recorrem aos hospitais, que emergencialmente necessitam de sangue para sua recuperação, como Câncer, que de acordo com o Instituto Nacional do Câncer – INCA, citado pelo Instituto Oncologia5 o país “deverá registrar 625 mil novos casos de câncer para cada ano no triênio 2020/2022”.

Segundo recente reportagem veiculada pela Folha de São Paulo6, em meio à pandemia do coronavírus, os bancos de sangue do país estão quase zerados o que, prima facie, demonstra e justifica a importância e o cuidado que se deve ter no trato com a matéria em comento.

Por óbvio e indiscutível é direito do servidor público ser doador de sangue, como também, por corolário, também o é ao elogio que, na qualidade de doador voluntário, traz para si a benemerência tão cara nos dias de hoje, onde a solidariedade, conturbada pela ganância desenfreada e pelo nefasto egoísmo desagregador e solipsista, definha-se a segundo plano ou simplesmente é delegada para a responsabilidade do Estado paternalista.

Ocorre que o Estado é pessoa jurídica e como tal não doa sangue, coisa que somente é possível às pessoas fazê-lo. Não obstante, o Estado, para fazer valer a política pública do incentivo à doação, deve começar fazendo o dever de casa, ou seja, estimulando os próprios servidores para que voluntariamente doem sangue, utilizando-se do instituto do elogio nos assentamentos funcionais do servidor e do abono da falta no dia da doação.

A administração pública, notadamente os setores correcionais, diante do impasse causado pelo direito do servidor público tornar-se doador de sangue e, com isso, ter que se ausentar do serviço comprometendo a regular prestação do serviço público, tem-se esforçado ante o desafio de identificar a situação-limite entre a conduta digna de elogio e a conduta passível de reprimenda disciplinar.
Verifica-se, de fato, em observação empírica, que alguns servidores realmente utilizam dos direitos decorrentes à doação de sangue para não ter que comparecer ao local de trabalho no dia da doação. Isso tem gerado certo constrangimento nos gestores públicos, que não sabe como lidar com o assunto, e muitas vezes encaminham para a área correcional a apuração de possível desvio de finalidade, em face das ocorrências em que servidores, de forma reiterada, se afastam do trabalho para doar sangue.
O tema é melindroso complexo e de difícil solução, pois exige da banca correcional expertise e instrumentos de aferição nem sempre disponíveis.

A Portaria Nº 1587, de 04/02/2016, art. 37, do Ministério da Saúde estabelece que:
A frequência máxima admitida é de 4 (quatro) doações anuais para o homem e de 3 (três) doações anuais para a mulher, exceto em circunstâncias especiais, que devem ser avaliadas e aprovadas pelo responsável técnico do serviço de hemoterapia.
§ 1º O intervalo mínimo entre doações deve ser de 2 (dois) meses para os homens e de 3 (três) meses para as mulheres”.
A objetividade temporal definida para a doação de sangue (4 doações anuais para homens e 3 para mulheres) sinaliza para um parâmetro e facilita a vida do gestor público que, respaldado nesse quantum, poderá, em tese, dadas as circunstâncias concretas, negar os benefícios.

Casos particulares como dos servidores que desempenham suas tarefas em regime de plantão e escala de revezamento, considerando ainda os fatores como o número escasso de servidores na unidade, podem tornar mais grave a situação da ausência do servidor, ainda que ele tenha se ausentado por um motivo justo e louvável.

É o caso, por exemplo, dos servidores que atuam em postos de vigilância (área da segurança pública) ou postos de cuidado (área de emergência e saúde), onde muitas vezes o serviço é prestado por poucos servidores, ou apenas um servidor, e a falta de um poderá comprometer indelevelmente o interesse público e causar graves prejuízos e transtornos à sociedade, talvez ainda maior do que a falta de sangue. Nesses casos, a ausência de um servidor em seu posto de serviço poderá causar graves danos coletivos, em favor do atendimento ao interesse de menor monta.

Evidentemente que “casos concretos” devem ser analisados como “casos concretos’, com suas sutilezas e especificidades. Por isso, deve-se exigir dos gestores públicos a justa medida na análise de todas as variantes do problema e aplicar a solução mais adequada, mister quando se trata de casos em que se requer a reprimenda disciplinar.

Verifica-se que alguns órgãos exigem de seus servidores o prévio aviso quando forem doar sangue, fato que, corriqueiramente, ocorre no início do dia. Acontece que esse prévio aviso nem sempre é possível que ocorra, como nos acasos de emergência ou de um parente que se encontra hospitalizado e requer uma doação urgente e imediata, não sendo possível a comunicação prévia.
Nesses casos, não é razoável tal exigência quando nem mesmo o doador sabe se tal doação irá se efetivar, em decorrência de múltiplos fatores que não dependem de sua vontade, como, por exemplo, o não funcionamento dos equipamentos dos hemocentros ou a falta dos requisitos pessoais e clínicos para a doação de sangue, etc.

Nesses casos fortuitos, inevitavelmente recairá sobre o servidor o ônus de arcar com o prejuízo da falta, caso não consiga realizar a doação e apresentar o respectivo comprovante à Administração.
Ainda nesse jaez, cumpre salientar que em caso de qualquer falta injustificada ao serviço, ao servidor poderá ser imputada apenas o corte na folha de ponto, medida essa meramente administrativa, cuja incidência disciplinar só ocorrerá nos casos de abandono de cargo (Ausência por 30 dias consecutivos) ou inassiduidade habitual (Ausência por 60 dias, interpoladamente).

Em se tratando da falta ocorrida em função da doação de sangue, se a Lei não exige a prévia comunicação para faltas não justificadas, quanto menos exigirá para faltas justificadas. A justificativa que, a nosso ver, prescinde de prévia comunicação, será o próprio documento que ensejou o afastamento, não devendo à Administração acrescer à Lei, em detrimento do administrado, o que ela não disse.

Desta feita, não é razoável exigir que o servidor faça prévia comunicação à chefia quando da doação voluntária de sangue, quando a própria lei que instituiu o direito à folga assim não o disse. Não cabe à Administração legislar através de elucubrações interpretativas.

Por outro lado, a tentativa de reparar entraves relacionados ao planejamento operacional, como os problemas logísticos decorrentes da falta de recursos humanos e lotação de não devem servir de aporte para justificar, pura e simplesmente, a denegação do direito do servidor de apresentar-se como doador voluntário de sangue. Nem tanto ao mar, nem tanto à terra!

A sabedoria está no meio, e os gestores públicos devem a ela moldar seus atos, de modo a que, melhorando o planejamento dos serviços públicos, não deixe faltar os recursos necessários para o atendimento do interesse público, seja na prestação do serviço, seja na garantia da doação de sangue.


REFERÊNCIAS:

1 CÂMARA DOS DEPUTADOS. PL 216/1949. Projeto de Lei.Disponível em: https://www.camara.leg.br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=173282, acessado em 15/05/2020.
2 BANCOS DE SANGUE NO BRASIL. Disponível em: https://www.institutohoc.com.br/bancos-sangue-brasil.html acesso em 15/05/2020.
3 VILELA, Pedro Rafael. Só doação regular de sangue mantém estoques, diz ministério. Agência Brasil, 2019. Disponível em: https://agenciabrasil.ebc.com.br/saude/noticia/2019-11/so-doacao-regular-de-sangue-mantem-estoques-diz-ministerio acesso em 15/05/2020.
4 CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA - CFM. Disponível em: https://portal.cfm.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=28254:2019-05-22-21-49-04&catid=3 Acesso em 15/05/2020.
5 INSTITUTO ONCOLOGIA. Estimativas de Câncer no Brasil. Disponível em: http://www.oncoguia.org.br/conteudo/estimativas-no-brasil/1705/1/
6 BANCOS DE SANGUE NO BRASIL ESTÃO QUASE ZERADOS EM MEIO A CORONAVÍRUS; VEJA COMO DOAR. Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2020/03/em-meio-a-crise-do-coronavirus-bancos-de-sangue-estao-quase-zerados-diz-governo-de-sp.shtml
7 MINISTÉRIO DA SAÚDE. Portaria nº 158/2016. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/gm/2016/prt0158_04_02_2016.html acesso em 15/05/2020.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

O RESULTADO NÃO FILOSÓFICO DA APATIA

Alfred Adler


"É o indivíduo que não está interessado no seu semelhante quem tem as maiores dificuldades na vida e causa os maiores males aos outros. É entre tais indivíduos que se verificam todos os fracassos humanos"



Alfred Adler 
(Viena7 de fevereiro de 1870 — Aberdeen28 de maio de 1937
Ele foi um psicólogo austríaco fundador da psicologia do desenvolvimento individual. 
Disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Alfred_Adler



Segundo Houaiss (2001): 
"para os céticos e os estoicos, estado de insensibilidade emocional ou esmaecimento de todos os sentimentos, alcançado mediante o alargamento da compreensão filosófica;"estado da alma não suscetível de comoção ou interesse, insensibilidade, indiferença". 

Segundo Abbagnano (2007):
"Esse termo significa propriamente insensibilidade, mas no uso filosófico antigo designou o ideal moral dos cínicos e dos estoicos, isto é, indiferença em relação a todas as emoções, o desprezo por elas" 


REFERÊNCIAS:

ABBAGNANO, Nicola. Dicionário de Filosofia. São Paulo: martins Fontes, 2007.


HOUAISS, Antônio e VILAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.